Viagem ao Passado: Os italianos que vieram morar em Afogados da Ingazeira no final do século XIX

Muitas pessoas não sabem, mas por volta de 1880, para além de portugueses, existiam outros estrangeiros morando no Pajeú. Na verdade, bem antes, desde o início do século XIX, já havia estabelecido raízes nessas paragens o famoso “Inglês da Volta
[1]”, Richard Britt – ou como conhecido pelos pajeuzeiros, Francisco Ricardo Nobre – de quem descendeu uma numerosa família, assunto para outra matéria sobre as Curiosidades do Pajeú. 

Procurando saber sobre os estrangeiros que moravam na nossa região, o Chefe de Polícia da Província de Pernambuco enviou a Afogados da Ingazeira uma Circular solicitando tais informações. Primeiramente, o interesse dirigia-se aos súditos do Império Britânico, posteriormente, estendeu-se aos cidadãos italianos. O delegado da cidade respondeu às duas solicitações. Vejamos a transcrição dos documentos. 

Resposta à solicitação sobre os britânicos: 

Ilmo. Senr. 

Sendo esta a primeira vez que Vsa. me honra com a sua circular de 13 do dezembro último, recommendando-me uma relação dos súbditos britânicos rezidentes n’este districto cumpre-me responder que não aqui não há nenhum delles. 

Deus guarde Vsa. 

Ilmo. Senr. Doc. Joaquim da Costa Ribeiro 

M. D. Chefe de Polícia da Província de Pernambuco. 

Delegacia de Polícia do Termo de Afogados 6 de janeiro de 1882. 

Antônio Pereira de Moraes 

A seguir, a resposta à solicitação sobre os italianos juntamente com uma lista contendo os nomes: 

Ilmo. Senr. 

Satisfazendo o que Vsa. o que foi servido ordenar-me a respeitável circular de 28 de dezembro último nº 8645, recommendando-me comunicar que os súbditos italianos rezidentes n’este termo são os constantes da lista junta. 

Deus Guarde Vsa. 

Ilmo. Senr. Doc. José Maria de Araújo 

M. D. Delegado encarregado do expediente da Polícia 

Delegacia de Polícia do Termo de Afogados 18 de janeiro de 1882. 

Antônio Pereira de Moraes 



Obs: A transcrição consta igualmente ao documento original. 

Afinal, como esses italianos vieram parar no Pajeú? 

Vejamos, de forma bem superficial, como estava a situação na Itália quando essas pessoas vieram ao Brasil. 

Até a primeira metade do século XIX, a Itália era formada por pequenos reinos, não existindo como Estado-nação. Muitos desses estavam sob o domínio dos austríacos. Foi a partir das revoluções liberais de 1848 que se fortaleceram, por toda a Europa, os ideais nacionalistas. 

Foi o rei de Piemonte-Sardenha, Vitor Emanuel II, juntamente com Camilo Benso, o Conde de Cavour, que lideraram a unificação italiana. Em 1861, após a conquista de alguns territórios, o rei Vitor Emanuell II declarou-se rei de toda a Itália. Importante lembrar que as últimas regiões foram anexadas ao território italiano somente após a Primeira Guerra Mundial, como é o caso do Vaticano, criado em 1929, através do Tratado de Latrão. 

Com o processo de unificação italiana, a emigração tornou-se um fenômeno social constante na Itália. No início da década de 1880, a saída de italianos do país já alcançava enormes cifras. Segundo o IBGE[2], entre 1884 e 1893, desembarcou no Brasil 510.533 italianos. Só para termos uma ideia, entre 1860 e 1920 sete milhões de italianos viriam tentar a vida em nosso país. 

As causas que fundamentaram os processos migratórios em direção às Américas são diversas, desde questões sociais, econômicas e políticas que ocorriam nos países de origem, como crescimento populacional, desemprego, fome e guerras, até questões pessoais como o ímpeto aventureiro e o desejo de enriquecer associados à busca de um “Eldorado”. 

Em relação ao Brasil, a esses aspectos, somam-se os incentivos dados à imigração através das iniciativas estatais e privadas de colonização, destinadas à substituição da mão-de-obra escrava nas lavouras (após a abolição da escravatura), fundamentadas por uma política higienista (por demais criticável) existente no país desde a segunda metade do século XIX, que se estendeu até a primeira república e tinha o “branqueamento” da população e a “modernização” das técnicas agrícolas e industriais, como objetivos. 

Como fizeram milhares de indivíduos ao longo da história da humanidade, essas pessoas vieram para cá tentar uma nova vida, uma vida melhor da que tinham em seus países de origem. Muitos conseguiram, muitos não. Alguns só cultivaram o espirito de nacionalidade em relação aos países de origem quando chegaram ao Brasil, outros fizeram questão de esquecer seu passado para se tornarem brasileiros. A migração fez e faz parte da natureza humana seja através de êxodos, seja através de diásporas, sejam espontâneas, sejam forçadas. O certo é que, em todo processo migratório, sempre existe uma mistura de sonho, esperança e sofrimento em que estão associados elementos de natureza étnica, política, social e econômica. Cabe a nós analistas, compreendê-los. 

Hesdras Souto – Sociólogo, Pesquisador e Membro-Fundador do CPDoc-Pajeú 

Aldo Branquinho – Sociólogo, Professor, Pesquisador e Membro-Fundador do CPDoc-Pajeú 

FAZEM O CPDOC-Pajeú: 

ALDO BRANQUINHO
FELIPE PEDRO
HESDRAS SOUTO
JAIR SOM
LINDOALDO CAMPOS
RAFAEL MORAES

[1] SAMPAIO, Yony e AOUN, Geraldo Tenório. Francisco Ricardo Nobre: O inglês da Volta e sua descendência. Recife: Centro de Estudos de História Municipal (CEHM/FIDEM), 2003. 







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