Lampião: homenagem a herói ou bandido? A polêmica estátua que divide Serra Talhada

13 dezembro Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Homenageado em estátua, Lampião já é nome de praça, rua e hotel 
em Serra Talhada — Foto: MUSEU DO CANGAÇO DE SERRA TALHADA

As várias opiniões sobre a figura de Virgulino Ferreira da Silva, o "Lampião", foram bem ilustradas pela música Fim da História, do músico baiano Gilberto Gil: "Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez/ Lampião faz bem, Lampião dói...", diz um trecho.

Segundo Gil, a letra foi uma resposta a um artigo do filósofo nipo-estadunidense Francis Fukuyama, que naquela época havia ficado mundialmente famoso por sugerir que a queda do Muro de Berlim, em 1989, significava o "fim da história" e a vitória definitiva do capitalismo liderado pelos Estados Unidos.

Uma cidade do interior de Pernambuco, no entanto, oferecia, para Gil, o contraponto perfeito ao argumento de Fukuyama. Em 1991, quando Gil ainda trabalhava naquela canção, o município de Serra Talhada, a 407 quilômetros de Recife (PE), mergulhou numa discussão exaltada sobre Lampião, que nascera ali no final do século 19.

Uma fundação local queria erguer uma estátua do cangaceiro numa área pública do município, mas as famílias mais tradicionais da cidade rejeitavam a ideia. Para tentar resolver o embate, a prefeitura decidiu promover uma consulta pública para que a população decidisse sobre ela ("Passaram-se os anos, eis que um plebiscito/ Ressuscita o mito que não se destrói…"). O monumento venceu nas urnas, mas nunca foi construído.

Quase trinta anos depois - novamente rejeitando o "fim da história", diria Gil - e mesmo em um momento diferente, Serra Talhada tende a se dividir outra vez em torno do mesmo assunto: uma fundação anunciou que vai instalar ainda neste ano três estátuas em uma área próxima ao centro da cidade: uma de Lampião, outra de sua esposa, Maria Gomes de Oliveira, a "Maria Bonita", e uma terceira de um dos seus soldados mais próximos, Isaías Vieira dos Santos, o "Zabelê" ("Sempre o pirão de farinha da História/ E a farinha e o moinho do tempo que mói...").

O projeto faz parte das comemorações de 80 anos da morte do cangaceiro, que foi lembrada em muitas cidades do interior nordestino ao longo deste ano.

O plebiscito de 1991

No começo de 1988, o então vereador Expedito Eliodoro (extinto PDS) apresentou um projeto para construir uma grande estátua de Lampião no alto da serra que moldura e inspira o nome do município, a cerca de quatro quilômetros da praça central. Sua ideia era inspirada no monumento de 27 metros do Padre Cícero, erguida 20 anos antes em Juazeiro do Norte, no Ceará.

Naquele ano, alguns grupos da cidade se preparavam para comemorar os 90 anos do nascimento do cangaceiro, cujos esparsos registros indicam que aconteceu ali, em um sítio nos arredores, em algum dia de junho de 1898.

À época, a relação de Serra Talhada com Lampião era ambígua: enquanto muitos soldados das forças volantes que combateram o cangaço pelo sertão nordestino nas décadas de 1920 e 1930 ainda estavam vivos e tinham se tornado nomes importantes da política e da economia municipal, movimentos estudantis, culturais e operários tinham nele uma imagem de luta por justiça social.


Morto em 1938, três semanas depois do seu aniversário de 41 anos, em Poço Redondo, no Sergipe, Lampião não tinha sequer um logradouro em sua cidade natal ("...Um cangaceiro/ Será sempre anjo e capeta, bandido e herói…")

Sem apoio parlamentar, o projeto de Eliodoro - que tinha sido o vereador mais votado da história municipal - não foi aprovado. "A ideia era muito doida: ter uma estátua gigante do Lampião no alto do morro. Sairia caro, mas óbvio que seria muito bacana para a cidade", afirma Cleonice Maria, presidente da atual Fundação Cabras de Lampião de Serra Talhada.

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