Aeroporto de Serra Talhada traz sonhos para quem nunca voou alto

21 março Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Para Manoel, o aeroporto trará uma nova expectativa de vida. Foto: Rafael Martins/DP

Se alguém dissesse a Manoel Erinaldo Barros Romão, 39 anos, que ele seria vizinho de um aeroporto que ele mesmo ajudou a construir e que ele trabalharia como o porteiro do campo de aviação, ele não acreditaria. Natural de São José do Belmonte, desde os 4 anos ele mora na zona rural de Serra Talhada, município de 85 mil habitantes no Sertão do estado, a 415km do Recife.

Manoel só começou a estudar aos 12 anos e aos 15 mudou para o turno da noite para ajudar os pais no trabalho com a roça. Apesar da curiosidade sobre como será a inauguração do Aeroporto de Serra Talhada, o foco dele não está nas viagens e sim na geração de renda para família. Os sonhos ele deixa para a filha de 3 anos. "Minha expectativa com o aeroporto é trabalhar e tocar em frente, né? Acredito que possa me render uma vida melhor. Tenho uma filha que fará 4 anos, ela deverá aproveitar mais as viagens que eu. Acredito que ela viajará muito morando do lado de um aeroporto”, conta o porteiro. 

A pista de pouso do Aeroporto Santa Magalhães, em Serra Talhada, 
já funciona para voos privados. Foto: Rafael Martins/DP

A casa a que ele se refere faz parte de uma fazenda que o pai dele trabalhou durante 30 anos. Atualmente, vive com a esposa e a filha. "Meu pai trabalhou aqui nessas terras. Essa casa existe há 16 anos e desde que ela está de pé, moro aqui", afirma. O porteiro já trabalhou como ajudante de caminhoneiro e pedreiro. Ele lembra que o lugar mais longe que viajou foi para levar carga em Maceió. "Nunca vi um avião de perto, o funcionamento dele mesmo. Só tinha visto longe no céu. A primeira vez que vi de perto foi aqui. Muitas pessoas passam aqui na porteira e ficam tirando fotos. Estou ansioso para inauguração", afirma. 

O aeródromo que Manoel se refere é o Aeroporto Santa Magalhães, em Serra Talhada. Ele já funciona para voos privados. Mas quem deseja viajar em voos comerciais, no momento, se desloca até Juazeiro no Norte (CE), cerca de 200 quilômetros de distância de Serra Talhada. De acordo com o secretário executivo da Secretaria de Transporte, Antônio Cavalcanti Júnior, a previsão é que o aeroporto passe a funcionar também com voos comerciais a partir do dia 15 de maio deste ano. "Em termos de infraestrutura, o aeroporto está pronto, inclusive o terminal provisório foi elogiado pela aviação civil. Para que esteja liberado para o funcionamento faltam apenas a Estação Meteorológica de Superfície Remota, a conclusão da terraplanagem da área do aeroporto e a cerca patrimonial", destaca o secretário. 

Falta pouco para inauguração de voos comerciais no Aeroporto de ST. Foto: Rafael Martins/DP

O início da operação contará com quatro voos semanais operados pela Azul, com a rota Recife/Serra Talhada. Mas a expectativa é de que com o aumento das demandas sejam estabelecidas novas rotas. A pista de voo tem 1,8 mil metros, a capacidade dos primeiros voos comerciais será de 72 pessoas. No momento, além da iluminação e voos noturnos, já existe um caminhão de bombeiros, que chega meia hora antes e sai uma hora depois do voo programado (atualmente somente particulares). O estado locou uma série de containers que são utilizados para a estrutura do aeroporto temporário. Na entrada, é possível visualizar os check-ins, o embarque e desembarque, as cadeiras para espera dos voos, um espaço para alimentação. De acordo com o secretário, ainda neste ano, começa a construção do aeroporto permanente. 

Moab voa alto, ele sonha em poder viajar para outro continente. Foto: Rafael Martins/DP

Com ansiedade para conhecer o mundo, o ex-caminhoneiro e atual agente de proteção de aviação civil, Moab Vieira do Nascimento, 37 anos, viu no aeroporto de Serra Talhada a chance que tanto buscava. Desempregado havia dois anos, hoje trabalha no aeródromo. Nascido e criado, como mesmo afirma, no Sertão do Pajeú, ele vislumbra as possibilidades que a construção do espaço traz para a vida dos sertanejos e da dele também. "Sem perspectiva, vi a oportunidade nascer. Sempre tive curiosidade de voar. Tenho vontade de conhecer os Estados Unidos e o Japão. Admiro muito a cultura japonesa, cultivo bonsais. Nunca imaginei que de Serra poderia ir para o Japão. Hoje, eu já sonho”, afirma. 

Como caminhoneiro, Moab viajou até Altamira, no Pará, mas nunca entrou dentro de um avião. "Quando era criança, víamos em foto como era a estrutura do avião. Sempre fui maravilhado por aqueles que faziam fumaça no céu. Meu avô de 84 anos foi a pessoa mais próxima que viajou de avião. A expectativa dele é viajar ainda mais quando o aeroporto de Serra Talhada estiver pronto. Disse que seu próximo voo já será daqui, de onde nasceu", exalta. (Diário de PE)

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