Filme sobre os poetas do Pajeú tem estreia exclusiva no interior de Pernambuco

26 fevereiro Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Nos rincões do sertão entre Pernambuco e Paraíba reza a lenda: quem bebe da água do Rio Pajeú, vira poeta. Definindo o cotidiano das pessoas, nas festas, residências, nos mercados, relembrando histórias de cantorias, em grandes respostas poéticas e dissertando sobre o sentimento, a poesia é onipresente e primordial. E é ela a protagonista em O Silêncio da Noite é que tem sido Testemunha de Minhas Amarguras. O filme tem estreia nacional marcada dia 15 de março, em algumas cidades do Brasil, como Recife, São Luis, Curitiba e um circuito alternativo no interior de Pernambuco.

Finalista entre os dez melhores filmes da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – São Paulo, SP (2016), o longa foi rodado nas cidades de Ouro Velho e Prata (PB) e da pernambucana São José do Egito, tomada como berço imortal da poesia. O documentário passeia pela região, revelando a tradição herdada por várias gerações, vidas pautadas pela poesia e a peculiar e orgulhosa prática diária de poetas, sonetistas, cantadores e violeiros que fazem de métricas e rimas disciplinadas um modo de vida.

O Silêncio da Noite é a segunda produção em longa-metragem de Petrônio Lorena (de O Gigantesco Imã), diretor e também compositor e produtor musical para trilhas. Nascido em Serra Talhada, localizada a duas horas de São José do Egito, desde a infância se interessava pela poesia, pela composição de músicas, sempre em contato com os poetas da região. Em 2010 deu o impulso inicial, realizando um profundo trabalho de pesquisa e de desenvolvimento de roteiro, apoiado pelo Funcultura. Filmou aos poucos, em muitas idas ao sertão, até 2015.

“O que eu acho mais legítimo do documentarista é sempre voltar àquilo no qual está trabalhando, criar um envolvimento. Eu sempre retornava à região. Esse envolvimento fez com que a poesia, que já estava presente, entrasse mais ainda dentro de mim; não a métrica, não o saber fazer poético, mas o sentimento. Lá tem muitos que dizem: ‘o verdadeiro poeta é o outro’. E o outro é aquele que sente. Então o verdadeiro poeta é o que sente, o que foi transformado”, explica o diretor Petrônio Lorena.

A taciturna frase que dá nome ao filme faz alusão a um poema, cuja autora é uma das figuras mais interessantes retratadas no longa: Severina Branca, dita a “Eleonor Rigby do Nordeste”. Musa e prostituta, poetisa e boêmia, Severina encantava os poetas da região, dando-lhes ‘motes’ rebuscadíssimos, cantados por eles, falando não apenas da vida dela, mas das amarguras de ser poeta. “O título refere-se também à dor e à alegria de ser poeta; da cumplicidade da madrugada na criação desses versos num sertão conservador e da utilidade social que a poesia traz a essas pessoas”, completa Petrônio.

“Meus filhos são passarinhos/ Que vivem dos meus gorjeios/ Eu para encher os seus papos/ Cato grãos em chãos alheios/ E só boto um grão no meu/ Quando vejo os deles cheios.”

(Louro)

“Se a coruja é minha companheira

O relógio se marca meia-noite

Ela sai pra fazer o seu açoite

Sai de dentro da sua cumeeira

Me acompanha entremeio

A fumaceira de uma neve que cai pela cidade

E o fantasma cinzento da saudade

Sai de dentro das furnas mais escuras

Onde existem tamanhas rachaduras

Que o tempo marcou sem ter pedido

Que o silêncio da noite é que tem sido

Testemunha das minhas amarguras”

(Severina Branca)

“Dizem que à princípio/ O caos pesou/ E a luz surgiu do choque das camadas/ Tais narrativas são falsificadas/ Não há quem saiba como começou/ Se as massas foram impulsionadas/ Tem uma força que as impulsionou/ Pergunto eu por quem foram tocadas/ E fico como um sábio uma vez ficou/ Celula, ovo, do nada em transição/ Gameta de pequena evolução/ Crepúsculo de caótica procedência/ Originária da microssomia/ Desenvolvendo a macrossometria/ Da monstruosidade da existência.”

(Biu de Crisanto)

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