A família Marinho/Patriota e a tradição sertaneja da boemia

21 dezembro Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


“Ser poeta é não ser escravo da mesmice e do conservadorismo, impedir de morrer na guilhotina o boêmio cantor do iluminismo, é lutar até ver cair vencida a esquadra do vil capitalismo.” É com esse senso de liberdade, lirismo e traços da vida no sertão que o cantor e poeta Antônio Marinho caracteriza suas obras. Nascido na “terra da poesia”, em São José do Egito, Pajeú pernambucano, ele vem de uma família que forma poetas há gerações. Ele é filho de Zeto e Bia Marinho, neto de Lourival Batista – o famoso Louro do Pajeú – e bisneto de Antônio Marinho.

Sua trajetória artística teve início logo cedo. Marinho lançou seu primeiro livro de poesia aos 16 anos, tendo começado a escrever aos 6. A obra “Nascimento” é a apresentação inicial de seu trabalho e traz uma seleção de 50 poemas escritos durante esse tempo, tornando-o o autor mais jovem da IV Bienal Internacional de Livro de Pernambuco. “Eu não descobri minha vocação, simplesmente já nasci inserido. Minha família não só foi influência, como foi o motivo principal de eu querer seguir essa carreira. Sou a quinta geração a viver de poesia”, conta ele.

Antônio nasceu e cresceu no meio poético com seus pais e seus irmãos Greg e Miguel Marinho. Em 2005 sua mãe, Bia, decidiu deixar o Pajeú para vir morar definitivamente em Recife com os filhos. A família se estabeleceu em um sítio em Apipucos, aonde, mais tarde, se tornou um ponto de encontro cultural que aglutinava diversas tendências poéticas e musicais pernambucanas. A chamada “Embaixada do Pajeú” era uma reunião quase diária que representava a cultura de São José do Egito na cidade grande. Lá, Marinho, na época com seus 18 anos, aproveitava a reunião de artistas para expandir sua musicalidade e seu desempenho como escritor, desde já se destacando pelo talento precoce.

“Eu e meus irmãos crescemos em camarins, palcos e farras, sempre com muita música e poesia. Eu, Greg e Miguel começamos entrando primeiro nos shows de Zeto e Bia. Nosso primeiro palco já foi em família; depois disso cada um foi direcionando para áreas diferentes; eu declamando, Greg no violão, depois Miguel no pandeiro. Desde cedo acompanhávamos os shows deles”, relembra ele.

Tão forte é a influência familiar que, apesar de ter diversos artistas como inspiração, as principais referências artísticas para Marinho são o avô Lourival Batista e o pai Zeto. Ambos poetas fazem parte do CD de poesia cantada lançado por Antônio e seus irmãos em 2013, o “Em Canto E Poesia.” A obra retrata a vivência dos três irmãos em São José do Egito e é descrita por ele como “uma louvação à poesia e à força criativa do Sertão do Pajeú e de São José do Egito.”

A apresentação ao vivo das músicas do CD é eletrizante; não existe palavra que descreva com maior exatidão a presença do grupo no palco. Acompanhado das vozes e dos instrumentos de seus irmãos, Marinho canta, dança, declama, se vira do avesso e prende os olhos e os ouvidos de quem assiste. Por mais que a experiência no meio musical tenham dado bagagem artística ao cantador, a essência de sua performance não difere completamente de quando ele tinha 18 anos e se apresentava para amigos e familiares na Embaixada do Pajeú.

A paixão demonstrada no palco não é inteiramente teatral; Antônio coloca a mesma intensidade em diferentes aspectos de sua vida. Em razão disso, seu processo de composição é completamente espontâneo: “eu trabalho com música e poesia, as duas são irmãs. Como eu venho do repente, minha poesia é naturalmente musicada; a métrica dá ritmo e cadência ao poema. Minha criação pode acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar, sem preparação nenhuma. É só eu me jogar no momento abismal da criação incerta.”

O repentista canta e declama tendo a própria poesia como temática; uma espécie de metalinguagem acerca da vida partindo do ponto de vista de um poeta. “É isso que o move como artista. Conceber a arte é uma força que educa, que liberta, que anuncia, que provoca, que faz ver além. Esse sentimento sufocante que acompanha o peito de todo artista, o de querer dar um jeito no mundo”, diz, com ar de riso.

Não se espante se, por acaso, um dia conversar com Antônio Marinho e notar que suas palavras formam um poema declamado em forma de conversação. O que o difere como artista é a não-separação do poeta e do homem pessoal. “Não há como eu separar minha vida da minha arte. Minha motivação para fazer arte é a vida em si. Eu nasci nesse contexto, nunca vivi fora dele. Eu nem saberia.” (Marcello Patriota)

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