Polêmica em evento cultural de Afogados gera repercussão em todo estado

06 novembro Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Confira na íntegra matéria da Folha de Pernambuco:

Uma performance da programação do evento Sertão Alternativo gerou confusão nas redes sociais e levantou, novamente, interpelações sobre o que é ou não arte. Foi no último fim de semana, em Afogados da Ingazeira, município do Sertão pernambucano, a encenação de "Não recomendado", uma performance de 13 minutos que representou várias formas de violência - contra a mulher, homossexuais e transsexuais, ocorridas na ditadura, cometidas pela polícia.

"Foi na segunda cena, que dura entre três e quatro segundos. Uma cadeira é posta atrás do ator que está de quatro. Ali, é uma figura homossexual e a cadeira é um elemento simbólico, um ato sexual que é recriminado por ser homossexual", diz o ator Edcarlos Rodrigues, que encenava a performance. "A fotografia (retirada no momento da cena), por si só, está descontextualizada, causa desconforto imagético. Mas algumas pessoas que viram a apresentação se sentiram impactadas pela mensagem".

O Sertão Alternativo é realizado pelo coletivo Espaço e Resistência e é oriundo de um evento anterior, o Afo Rock, que foi abrindo espaço para outras artes. Este foi o primeiro ano com apresentação de artes cênicas. "A performance foi muito bem aceita pelo público presente à apresentação, mas alguém pegou esse ponto específico, três segundos de cena, e tirou do contexto", disse uma das organizadoras do evento, Laeiguea Bezerra de Souza. Ela lamentou que a polêmica tenha se sobressaído ao trabalho do coletivo, realizado durante todo o ano no município, e à programação, que teve nove apresentações distribuídas nos últimos sexta (3) e sábado (4). "A cena sequer tem nudez, a ideia era que o público pudesse se colocar no lugar daqueles que foram, um dia, violentados", argumenta.

Laeiguea diz ainda que o coletivo sequer tem, entre trabalhos realizados, apresentações de cunho sexual ou erótico. O evento realizado no último fim de semana reuniu shows, apresentações de dança, performances, oficinas em escolas públicas. "Ficamos tristes, por um lado. Mas com relação ao ano que vem, vamos continuar fazendo o evento", comentou.

Palcos distantes
O diretor de Teatro Samuel Santos, do grupo O Poste, consideram que a maior dificuldade, hoje, para as artes cênicas é a de se formar um público porque as pessoas tem pouco ou nenhum contato com teatro. "Levamos 'Cordel do Amor sem Fim' para 40 cidades banhadas pelo rio São Francisco e mais da metade não tinha espaço cultural", argumenta. 

Santos diz que já aconteceu de produtores de espetáculos no interior recomendarem que se excluam, por exemplo, cenas de nudez da encenação. "Em casos assim, eu pondero. Se não for prejudicar a obra, retiro. Mas, muitas vezes, não há qualquer problemas dessa natureza. Em 'Cordel' tinha cena de nudez e o público recebeu muito bem", diz, tocando em outro ponto.

Para o diretor, uma vez que o público tenha mais intimidade com as artes cênicas, mais fácil ficará para compreender o contexto socio-cultural da encenação. "Não é uma questão de levar espetáculos mais 'lights' a esses públicos. Acredito que educação e cultura são essenciais para que esse público seja formado".

Edcarlos também acredita que é necessária a formação de público. "Desde que voltei para Afogados, vi que há uma urgência nisso. Além disso, o que mais existe são especialistas e juízes de redes sociais. Procuramos algumas das pessoas que postaram críticas à performance, mas elas se recusaram a conversar sobre o que as incomodou", disse o ator, que é formado pelo curso de Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal de Pernambuco.