Dona Alila, um armarinho centenário e três histórias de amor em São José do Egito

06 agosto Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Do Diário de Pernambuco - Aos 93 anos, Dona Maria José Veras Lyra é personagem ilustre de São José do Egito, Terra da Poesia, onde ela cria cinco gatos e viveu três grandes paixões

Bem no Centro de São José do Egito, no Sertão pernambucano, um armarinho abre as portas todos os dias, há mais de cem anos, antes das nove da manhã. O casarão é fechado somente após as cinco da tarde e é o único da região a revender a marca de linhas de costura Corrente Laranja – todo bom costureiro poderá atestar a relevância dessa informação. O armarinho não dá dinheiro, isso fica bem claro. Dona Alila, a cativante senhora de 93 anos por trás do balcão, apura menos de R$ 10 por dia. E que ninguém se engane: ela vive da aposentadoria como professora e de pensão obtida com a viuvez. Se continua a abrir as portas do estabelecimento, coisa que há alguns anos não pode fazer sem a ajuda da amiga Lúcia, de quase metade de sua idade, é para preservar a lucidez, ver o movimento da cidade e manter vivas suas histórias de amor. Isso porque Dona Alila nem sempre foi uma senhora de 93 anos, viúva, com cinco gatos e rotina pacata no pequeno município do Pajeú. Muito antes de ser a guardiã da Casa Lyra, armarinho fundado em 1915, apaixonou-se à primeira vista e a vida mudou.

Era a década de 1940 quando a roda do destino de Alila começou a girar: Alila passava as férias na casa da madrinha, em São José, e conheceu Mário Vieira de Lyra. Foi amor instantâneo e se provou longevo, de modo que ela passaria um mês na cidade em que, como se sabe, passou toda a vida. “Cheguei em 1946. Depois de algumas semanas, recebi uma carta da minha irmã Estela, pedindo que eu não desse conversa a um rapaz chamado Mário, por quem ela tinha se apaixonado pouco antes, quando visitava a cidade. Era justamente o rapaz por quem eu já estava apaixonada”, lembra Maria José Veras Lyra, a Dona Alila. Ela ri das coincidências da vida. Naquele mesmo ano, em respeito à irmã, arrumou as malas e voltou à cidade natal: o melhor a fazer era manter distância, antes que houvesse motivo de desafeto na família. Dias depois, contudo, o rapaz bateu ao portão da casa dos Vera, em Afogados da Ingazeira, e pediu a mão de Alila em casamento.
Foi em São José do Egito, portanto, que os primeiros meses em que Alila experimentava o amor foram se transformando em anos. E, então, viraram décadas – sete delas, para falar com precisão. E Alila foi se tornando pessoa de referência na região: já casada com Mário, conseguiu trabalho na Escola Estadual de Referência Oliveira Lima, onde atuou por 30 anos. “Quando meu sogro faleceu, em 1960, Mário assumiu o balcão da Casa Lyra, que o pai tinha fundado, mais ou menos na época em que virei diretora da escola”, ela recorda. Naquele tempo, a rotina que a transformou em figura ilustre no município era bastante puxada: “Eu chegava todos os dias às seis da manhã, abria a despensa para as meninas que preparavam a merenda e saía somente às onze da noite, depois das aulas de alfabetização de adultos. A minha vida era aquele colégio… Me sobrecarreguei tanto que adoeci”, conta. À frente da Oliveira Lima, sua segunda paixão, Dona Alila foi submetida a uma angioplastia e recebeu, além de um marca-passo, uma válvula artificial no coração.

Como Alila foi parar atrás do balcão da Casa Lyra é a parte mais curiosa – ao mesmo tempo bonita e triste – da história. Foi um gesto de delicadeza do destino, depois de dois golpes de dor. Em maio de 1987, enquanto organizava a festa de Dia das Mães no colégio, Alila recebeu um telefonema da cunhada que morava na capital do estado. Soube, ali, de seu afastamento da diretoria da Oliveira Lima, decisão já homologada pelo governo do estado no Diário Oficial da União. “Eu tinha passado a madrugada preparando um bolo para a homenagem às mães. Fiquei olhando aquele bolo na minha mesa, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir. Fiquei muito magoada com (Miguel) Arraes, que era o governador… Muitos diretores foram substituídos no estado, não era nada pessoal. Mas foi tanta tristeza naquele dia, que eu pensei que minha vida tivesse acabado”, lembra Alila, que se emociona sempre que resgata os bons tempos na comunidade escolar. Hoje, ela garante, reza todos os dias pela alma de Arraes. Não fosse a destituição do cargo de diretora, não teria assumido a Casa Lyra quando foi preciso.

“No meu último dia na Oliveira Lima, telefonei para Mário e pedi que tirasse o Fusca da garagem para me buscar no fim da noite. Eu tinha muita coisa para carregar, não queria que ninguém me visse subindo a ladeira com minhas pastas na mão, chorando. Meu marido era meu melhor amigo, chorou comigo quando dei a notícia”, conta. Alila não sabia, mas aquela se revelaria sua última chance de conviver mais com o marido, que morreria três anos depois. “Fiquei devastada com a demissão, mas terminou sendo um presente para nós dois”, avalia, quase 30 anos depois. Nos últimos anos com Mário, aprendeu a manejar o estoque e o caixa do armazém Casa Lyra, que ela mesma transformou em armarinho nos anos 1990. Era mais fácil manusear linhas, botões, zíperes e carretéis – do armazém original, restam à venda somente parafusos, de todas as espessuras e tamanhos. “O armarinho me dá alegria, não dinheiro. E eu nunca tirei nem um dia de folga, porque aqui eu me mantenho ativa, faço contas, arrumo as coisas, vejo as pessoas, me lembro de Mário”, explica, outra vez apaixonada. Mas nem precisava, os motivos são todos muito claros. Lúcia de Souza Silva, 53 anos, lhe acompanha nos afazeres domésticos e do armarinho desde que o ex-marido partiu. Foi enviada por uma das cunhadas, a fim de preservar Alila da solidão.

As placas na fachada da Casa Lyra ajudam a reconstruir os fatos. “Por este centenário, agradecemos aos nossos amigos Mário Lyra (Tatá) e Alila pela dedicação na continuidade desse trabalho”, diz uma delas, fixada no casarão em 2015, quando o armarinho completou um século de fundação. É um registro da história de amor de Alila, a única que ela viveu. “Fui felicíssima. Diziam que éramos o casal número um da cidade e não porque a gente tivesse luxo, não era isso. Era porque andávamos juntos para todo canto, participávamos de tudo que acontecia em São José do Egito. Enquanto foi vivo, Mário fez absolutamente tudo o que eu quis, acredita? Depois, ainda me deixou a Casa Lyra, que me mantém viva e lúcida até hoje”, ela conta. Os dois não tiveram filhos, mas pode-se dizer que estão perpetuados na memória do município, nas paredes do armarinho secular. Sobre quantas histórias se diz o mesmo? Para agradecer a generosidade do destino, Dona Alila vai à missa nas primeiras sextas-feiras de cada mês. Ela espera sempre por mais “visitas”, como chama os clientes, para ter com quem conversar. Recebe com menos frequência os fornecedores, pois tem feito menos pedidos diante da baixa demanda, e não acha justo com Lúcia, nem com os gatos, repetir sua história mais uma vez – eles sabem tudo de cor. Mas a história de Dona Alila tem sido, para si mesma e para os outros, um presente. Ela mesma pode assegurar que algo de extraordinário lhe moldou o percurso: “A vida que eu quis, do jeitinho que eu sonhava, caiu aqui, minha filha, bem na palma da minha mão.”

Dona Alila abre as portas da Casa Lyra entre as 8h e as 9h, todos os dias, quando é recebida pelo gato Papaizinho, criado ali dentro. Por volta das 17h30, segue para casa junto com Lúcia e encontra os outros quatro gatos de estimação – Chuchu, Suzi, Kiko e Florzinha. A Casa Lyra fica na Rua João Pessoa, n. 49, no Centro de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco.