Municípios de Pernambuco e Paraíba não viraram mar, mas o rio chegou ao Sertão

13 março Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


A região não virou mar. À seca ainda castiga o bicho homem e demais seres vivos no semiárido, emoldurados na paisagem esturricada pela estiagem que dura seis anos. A dura convivência da sede com a secura, da coragem com a inclemência do clima marca uma história em que a desesperança é amenizada pela resiliência, essa resistência adaptativa que faz a força do sertanejo ante a realidade.

A região não virou mar, mas o rio chegou ao Sertão. A Transposição do São Francisco, ideia antiga, sempre postergada e atrasada, começa a mudar a vida da população. Ao longo de 217 km, um novo e precioso fio de água pode ser visto do alto, atravessando municípios de Pernambuco e Paraíba. O canal que leva a redenção do São Francisco virou atração e motivo de satisfação. "Olha aí, a água do Chico chegou. Depois de séculos, mas chegou", disse o jovem Rafael, ao tirar uma foto ao lado do canal em Monteiro (PB), resumindo o sentimento dominante. A incredulidade cedeu espaço à euforia que deixa as pessoas em transe diante da água a perder de vista, no canal ou represas que se transformam em gigantescas piscinas. Muitos se jogam para nadar, numa atitude perigosa: dois homens morreram afogados em Floresta, depois de algumas braçadas na emoção.

A inauguração do Eixo Leste, em Monteiro, na sexta, foi um momento de incontida e justificada alegria, não apenas para o povo diretamente beneficiado, mas para todos os nordestinos. A entrega parcial da obra mostra que é possível mudar uma realidade secular. A inundação rápida de um leito de rio seco, através do jorro de esperança transparente, foi um momento há muito esperado. O acionamento das comportas, em Sertânia, repleto de autoridades, juntou o protocolo político à consumação do sonho de gerações.

As águas do Velho Chico precisam de mais obras para se espalhar no Agreste e no Sertão em Pernambuco. Sem a Adutora e o Ramal do Agreste, a Adutora do Moxotó, a Barragem de Serro Azul e outras obras hídricas, que podem levar anos para serem concluídas, o alcance da no Estado será aquém do potencial atingido na Paraíba, por exemplo. O déficit hídrico irá perdurar enquanto os investimentos necessários não forem feitos, seja pelo governo estadual ou pela União. Este é um assunto, que está no Editorial do JC desta segunda-feira (13), e que rende disputas infundadas. "Estamos aqui pagando uma dívida", afirmou, o presidente Michel Temer. Dívida que não foi saldada nem por ele nem pelo governo Lula, que iniciou a obra sem terminá-la. A disputa pela paternidade da obra pública já é fora de propósito ao macular a finalidade republicana do bem coletivo com a exploração populista de supostos méritos para exaltação individual. (O Povo com a Notícia)