Conheça o vulcão abortado do Pajeú, localizado em São José do Egito

18 março Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Além de todo o potencial histórico, turístico e cultural que possui, a cidade pernambucana de São José do Egito, no Sertão do Pajeú, possui um atrativo natural bastante incomum para a região, trata-se de um local onde há vestígios de um vulcão. Sempre foi ensinado nas aulas de geografia que o Brasil, por ter seu território localizado completamente no centro de uma placa tectônica, a Placa sul-americana, está livre de diversos fenômenos naturais, como vulcões e terremotos, que ocorrem em locais próximos às extremidades destas placas de tamanhos continentais.

O que foi e é repassado sobre a inexistência desses fenômenos de fato não está errado, entretanto, quando se fala que no Brasil não existe risco de ocorrências dessa natureza, refere-se ao tempo geológico atual. Realmente não existe no território brasileiro nenhum vulcão em atividade. Portanto, para melhor entender o que existe na Serra Preta, vale aqui ressaltar a diferença entre tempo geológico e tempo histórico. Toda a história propriamente dita que envolve a humanidade e todos os outros seres vivos é praticamente nula quando a mesma é envolvida no tempo geológico. Este não é medido em meses, anos ou mesmo séculos, mas em milhares, milhões ou até bilhões de anos.

Ao estudar a ciência geológica e suas vertentes, logo compreende-se que o planeta Terra, desde seu surgimento - há cerca de 4,6 bilhões de anos - passou por inúmeras mudanças físicas em sua geologia, antes que aparecesse o primeiro sinal de vida. Os vulcões, por sua vez, são fenômenos que ocorrem há bilhões de anos na Terra. O que se sabe é que no início de sua formação, o planeta era literalmente um aglomerado de rochas em temperaturas extremas, fundindo-se, antes de iniciar o longo processo de resfriamento. Em resumo, à medida que o tempo passava, a temperatura diminuía de fora para dentro do globo.

O núcleo da Terra hoje é simplesmente a continuação desse resfriamento, e os vulcões são os “canais” que o material magmático encontra para escapar e liberar calor e gases do interior do planeta. As placas tectônicas que compõem a superfície do planeta (litosfera) são como gigantescas “cascas” que flutuam sobre uma camada de material sólido, porém flexível, chamada de crosta. Esta camada envolve outra chamada manto. O manto é viscoso, formado por uma fusão de materiais, que recebe o nome de magma, que envolve o núcleo, extremamente denso e sólido, formado de níquel (Ni) e ferro (Fe).

Para que o magma chegue até a superfície, caminha por meio de fissuras na crosta até encontrar uma saída na Litosfera. Por esta camada ser mais sólida que a crosta, o processo de erupção costuma ocorrer com mais frequência nas bordas das placas, simplesmente por ser o caminho mais fácil encontrado pela lava. As placas tectônicas, embora bastante sólidas, não são fixas, contudo, sua movimentação ocorre ao decorrer de milhares de anos, num processo extremamente lento. À medida que as placas se movem, algumas crateras (ou bocas) dos vulcões acabam sendo gradativamente desalinhadas por quilômetros da saída do canal por onde a lava era eliminada naquele momento geológico. Foi exatamente isso o que ocorreu na Serra Preta. As rochas que hoje se encontram lá são superficiais, não havendo risco de uma futura erupção, pelo menos não por alguns milhões de anos a contar de agora. Diferente de um vulcão adormecido, a Serra Preta constitui o que se chama de vulcão abortado.

As rochas existentes no local têm coloração escura, principalmente nas partes mais baixas da montanha, diferentes de todas as outras nos arredores. À medida que se aproximam do topo apresentam-se menores e mais claras, isso pode ser explicado quimicamente, a depender da quantidade de sílica presente entre os minerais da rocha. Quanto mais sílica, mais claras serão as rochas. Elas surgiram a partir de uma quantidade relativamente pequena de lava que foi extravasada na superfície há milhares de anos. São rochas chamadas de basaltos, pertencentes ao grupo das ígneas (ou magmáticas) vulcânicas, finamente granuladas, formadas por cristais minúsculos, por resultar de material magmático rapidamente resfriado ao extravasar-se na superfície, caracterizando-as ainda como extrusivas.

A vegetação no entorno do local também é diferenciada, e isso pode ser explicado como uma resposta à maior concentração de nutrientes no local por consequência da origem do material vulcânico, bastante rico em minerais, que foi intemperizado, tornando os solos do entorno mais férteis que os outros da região. O nome "Serra Preta" deriva da tonalidade das rochas que compõem a serra, claramente observável, batizado assim pelos primeiros ocupadores do local. Este lugar incrível fica em uma propriedade privada, chamada de Fazenda São Pedro, dentro do território do município de São José do Egito, a vinte quilômetros do centro desta cidade. O acesso ainda não é devidamente preparado para visitações turísticas, pois trata-se de um local remoto, completamente cercado por uma mata densa que dificulta a chegada e carece do acompanhamento de guias.

Segundo os proprietários da fazenda, em entrevista realizada, há intensão de transformar não somente a serra, mas toda a fazenda e sua dinâmica em uma atração turística, com instalação até de um observatório astronômico no topo da Serra Preta, mas até o momento nenhuma obra foi iniciada. Poucos foram os pesquisadores interessados em entender mais a fundo o que existe de fato na localidade, embora diversos estudiosos de todo o país já a tenham visitado, como contam os moradores da região. O local encontra-se nas coordenadas S07°29’22.5” W037°07’31.9” e tem seu cume a 694 metros de altitude. (Por Nardson Ricardo/ Sertão Egipciense)