Carlos Emanuel (Cacau) o menino que "atrapalhou" o domingo de muita "gente"

14 março Grupo Roma Conteúdos 0 Comentários


Por Vinícius Gregório - Neste último domingo, estava no sítio quando minha mãe recebeu uma ligação dizendo que Cacau, funcionário do Lar do Idoso de São José do Egito, estava desaparecido no Açude Velho, após um mergulho que deu. Corremos ao local, com a esperança de que era uma informação mentirosa. Quando chegamos, confirmamos: É mentira. Afinal, dezenas de pessoas estavam no mesmo açude, tomando banho, brincando, bebendo (bebendo muito), ouvindo som alto e dando gargalhadas. Pensei com minha humanidade: se tivesse morrido alguém aqui, esse povo não estaria desse jeito. Mas aos poucos as informações chegavam, meio desencontradas, mas confirmando que ele estava desaparecido mesmo, naquele mesmo local em que as pessoas continuavam brincando. Continuei sem acreditar, mas agora na reação dessas dezenas de pessoas: como pode alguém continuar farrando enquanto um ser humano está afogado no mesmo ambiente?. Acho que essas pessoas não queriam ter seu domingo atrapalhado por nada. NESSE MOMENTO EU SENTI VERGONHA DE SER GENTE. Acho que essas pessoas jamais entenderão o que vou falar sobre a vida de Cacau agora:
Aliás, conheço pouco da vida dele, mas o que conheci já foi o bastante para dizer, com toda certeza, que existem poucos seres humanos iguais a ele. Defeitos? Claro que ele tinha, mas que só faziam mal a ele mesmo, porém quero falar das qualidades: Cacau era funcionário do Lar do Idoso, mais que isso, era uma das vigas daquele Lar. Sua função, na teoria, seria apenas ser motorista e zelador das dependências da casa, mas ele nasceu para ser diferente e, por amor e vontade, tomava conta de lá e de cada velhinho como se fosse sua casa e seus avós que estavam nela. Ele cuidava da horta com um orgulho que irrigava mais que água; pintava as paredes com um zelo que até enganava a qualidade da tinta; ajudava as meninas na cozinha (cozinhando e lavando louças) como se trabalhasse na cozinha de um restaurante fino. E não para por aí: dava banho nos idosos, limpava xixi e cocô deles e carregava nos braços, todos os dias, aqueles que não podiam andar, para dar banho, comer, passear etc. E ainda sobrava tempo para dar atenção às histórias e às carências de cada velhinho. Você conhece quantas pessoas capazes de fazer isso?? 

Quer saber se estou falando a verdade? Visite o lar do idoso esses dias e você verá a cena que vi: todos os idosos lúcidos em prantos, sem falar nos colegas de trabalho. Escutei três idosos dizendo que não tinha mais sentido ficar ali dentro sem Cacau. Pena que eles só têm ali dentro mesmo para ficarem e vão ter que se acostumar com mais essa patada da vida. Uma das velhinhas, que vive em cima de uma cama, abraçou minha mãe em prantos e minha mãe disse, também em prantos: Dona Irene tá aqui e não vai lhe abandonar não. Ela respondeu: Mas dona Irene não voga como ele vogava!

Nesse momento, olhando a obra de humanidade que Cacau deixou, voltei a SENTIR ORGULHO DE SER GENTE. 

Cacau, em nome de todos que amam aquele Lar, muito obrigado por sua contribuição para com ele; Em nome da parte humana de São José do Egito, muito obrigado por ter colaborado com nossa cidade; e por mim mesmo, muito obrigado por seu exemplo!

Com o perdão da heresia, mas eu até imagino como foi a entrada de Cacau no céu, com Deus abrindo a porta e dizendo: seja bem vindo, Cacau, você merece entrar aqui.

Quanto aos que tiveram seu domingo de descanso "atrapalhado” por Cacau, eu nem quero imaginar o que Deus vai dizer no dia deles.