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domingo, 4 de setembro de 2016

Cenário musical do Pajeú é destaque estadual

Fotos do Espaço e Resistência de Afogados gentilmente cedidas ao Mais Pajeú

Uma breve revisada na história da música pernambucana basta para perceber que parte expressiva da cultura do Estado está no seu Interior. Através de nomes como Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Otto e Cordel do Fogo Encantando, cujas origens estão ligadas ao Agreste e ao Sertão, por exemplo, a música pernambucana escreveu sua particular assinatura no cenário nacional. Mas logo os municípios mais distantes se habituaram a perder seus talentos para as capitais, onde historicamente sempre houve mais público. No entanto, essa realidade vem sendo transformada recentemente por iniciativas independentes.

É o que conta Kacike Cândido, da banda de hardcore Doppamina, de Serra Talhada e produtor do Cangaço Rock Fest. O grupo também faz parte do Encontro de Bandas Alternativas de Serra Talhada (Ebasta), que promove shows gratuitos de conjunto autorais nativos nas praças da cidade. “Com a chegada da Universidade Federal Rural (instalada em 2006), começaram a surgir novos bares, que davam abertura para cena local, e a vir pessoas de outras cidades que tinham essa demanda cultural”, explica o músico, ao apontar as razões que favoreceram a nova movimentação musical na região.

Acostumado a receber bandas de forró e sertanejo em suas grandes festas, o Sertão do Pajeú começa a abraçar a cena local também em eventos feitos pelas prefeituras, como é o caso da Festa de Setembro, de Serra Talhada, que neste ano apresentou a própria Doppamina e outros filhos da terra em sua programação, como Petrônio e As Criaturas. “Artista sempre existiu, mas o processo de organização dos artistas é uma coisa nova por lá”, observa o vocalista Petrônio Lorena.

O Coletivo Mangaio é fruto dessa articulação recente entre os músicos e aglutina expoentes de Triunfo, Afogados da Ingazeira, São José do Egito, além da própria Serra Talhada. “Tudo é feito de forma colaborativa. Nos unimos para fazer eventos mensais que sempre acontecem em uma das cidades envolvidas, contando com shows de uma banda de cada lugar”, explica uma das produtoras Laeiguea Souza, de Afogados, que também organiza o coletivo municipal Espaço e Resistência, do qual faz parte grupos como o Lisergia, que compõe temas de rock psicodélico e progressivo.

Todas as cidades que participam do Coletivo Mangaio deve contar com uma organização própria de bandas. Em Triunfo, por exemplo, a dupla Radiola Serra Alta fica à frente do coletivo Ambrosino Martins. Vestidos de Careta e Veinha, personagens do Carnaval, os dois trazem já na imagem a proposta de explorar a cultura regional, associando-a a elementos eletrônicos. O dueto tocou no festival recifense Porto Musical de 2015 e no britânico Glastonbury deste ano.

“Junto com o desejo de explorar a tecnologia, veio também o desejo de nos descobrir como sertanejos. Ao mesmo tempo que a monocultura musical massifica, também provoca um tédio, por isso acho natural que agora as pessoas comecem a buscar o local como algo diferente. É muito legal tocar fora, mas temos a consciência que precisamos cativar um palco aqui, porque é uma coisa endógena”, diz um dos integrantes da dupla que reside em Triunfo e não revela sua identidade. 

Natural de Altinho e criado em Caruaru, Almério avalia que ainda falta para o Interior fervilhar. Atualmente vivendo em São Paulo, como parte do elenco da peça “Gabriela”, de João Falcão, e prestes a lançar o segundo disco “Desempena”, pelo edital da Natura Musical, o músico também investe na cultura local em diálogo com a música mundial. “Falta mais investimento do poder público e mais respeito pelas bandas e artistas, mas o movimento é legítimo. Não é nada fácil, trabalho há 13 anos com música e somente nos últimos 3 é que as coisas começaram a acontecer pra mim. Nesses anos todos, eu e meus amigos de lida, sempre reforçamos a importância da conscientização do público”, conclui ele. (Folha de Pernambuco)

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