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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Blog Novela Pedaços de Tempo - Capítulo 2

Blog Novela Pedaços de Tempo - Por Jefferson Messias
Capítulo segundo

Amice apertou os olhos e releu a missiva feita a sangue:

“Antes que o tempo se parta em mil pedaços, eu devo entregar os meninos desta vila a Deus antes que eles firam Seu corpo com pecados! E o próximo será o Frank.”

Quando digo que ninguém gostaria de ler isso é porque eu digo a verdade. Frank era o filho de Amice. Ele tinha onze anos e morava com o pai numa das casas mais afastadas da cidade. Assim como a mãe, Frank tinha os cabelos loiros e os olhos azulados. E ainda como a mãe, ele era devoto de Deus e era uma pessoa boa.

Ela deixou o cansaço e o banho de lado; pegou seu cavalo sem prepará-lo e foi para as casas afastadas. Chegou em vinte minutos e se sentiu aliviada. Frank brincava de caçar besouros com mais dois amigos. Ao ver a mãe chegando, deixou os besouros de lado e correu para seus braços. Ele amarrou seu cavalo num poste próximo e correu para encontrar o pequeno.

- Meu pequeno... como está esse sorriso lindo?

- Faltando um dente... – ele disse apontando para a boca aberta.

A mãe sorriu da pureza infantil e perguntou pelo pai. Ele respondeu que estava se confessando com o padre Miguelino. E foi nesse momento que ela ouviu os dois saindo da casa.

- Então fique sossegado, meu filho, o que aconteceu hoje mais cedo na taberna do Sr. Drazo não deve tirar seu sono. Siga meu conselho quanto a não ir mais por lá e também o de fazer o pequeno Frank voltar para o catecismo, pois devemos entregar os meninos desta vila a Deus! – disse o padre para Batista, pai de Frank.

- Pode deixar, padre... Dê-me sua benção.

- Abençoo você e sua família. Tenha uma boa semana. – disse e se virou para Amice – Para a senhorita também. Passar bem...

Amice maneou a cabeça por puro costume. Viu o padre se afastar para sua abadia e foi ter com o ex-marido depois de pedir que o filho buscasse seus besouros para ela os ver.

- Como vai Batista?

- Um pouco entediado depois de me afastar do serviço. Tenho buscado uma nova distração... mas me diga: o que te traz aqui antes do fim de semana passar?

- Uma pequena missiva e uma navalha. Como substituta do seu posto, gostaria de seus conselhos.

Batista era um homem duro, mas correto. Amou a esposa mais que a si. Errou ao beber demais e sair com uma dessas meretrizes de taberna. A separação foi inevitável e tranquila. Ficou responsável pelo pequeno nos fins de semana.

Amice ainda o amava, mas ainda não tinha superado a traição. Mantinha as aparências para não afetar seu pequeno Frank. Logo chegaria o dia para uma conversa assim, porém precisava dar proteção a ele. E Batista ajudaria nisso.

Tirou o pequeno papel do bolso e entregou-lho. Ao ler, ele gelou até os ossos.

- Mas... mas...

- Exato. O próximo é o nosso pequeno.

- Não é disso que estou falando. Essa frase “devo entregar os meninos desta vila a Deus” é uma que sempre é repetida pelo padre Miguelino. Quanto à proteção de Frank, aconselho que fique aqui conosco até resolver esse caso. Eu soube dos quatro corpos de meninos encontrados...

- Quatro? – ela interrompeu. – eu sabia de apenas três.

- Foi encontrado mais um ontem à noite. Estava escondido num porão. Enforcado. O soldado e meu estimado amigo Santana me disse hoje pela manhã. Encontrei-o na missa das sete. E foi nela que convidei o padre para me confessar de algo que faria mais tarde, depois que a missa passasse.

- E o que fez depois da missa que foi preciso marcar uma confissão?

- Direi depois... aí vem o Frank. Venha... vamos comer.

- Sim... mas sabe que os outros três corpos estavam com cortes de navalhas no pescoço e esse que você disse estava enforcado. Achei que era um matador rotineiro, mas agora não sei...

- Cale-se. Aí está o Frank... – disse fazendo um cafuné na cabeça do filho que levantava o pote com cinco besouros dentro.

- Vai me ajudar?

- Já estou ajudando, Amice. E tenho algo pra te mostrar. No entanto, vamos à mesa antes.

Entravam os três no exato momento em que os sinos da abadia começavam a tocar.

Ouviram trotes de cavalo e se viraram para ver quem chegava. Ouviram uma voz como que de papel amassado:

- Coloquem mais um prato sobre a mesa. Juntar-me-ei a vocês para o almoço!

Continua no próximo capítulo...

Confira o capítulo 1: CLIQUE AQUI

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