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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Afogados da Ingazeira: Amor e saudade

Afogados da Ingazeira, minha terra natal, onde com um berro vi ao mundo, é uma página de saudade. E a saudade serve para me dar a absoluta certeza de que, apesar da distância que nos separa, ficaremos para sempre unidos – pátria e filho. Sou fiel ao ensinamento de Olavo Bilac: ama, com fé e orgulho, a terra em que nascestes. Meu torrão escaldante do sol e da seca que nos maltratam tanto está em festa, hoje, comemorando 107 anos de emancipação política.

Nem poderei estar lá, para beijá-la, abraçá-la e num abraço prolongado, sem desgrudar, renovar o testamento que assinamos de amor eterno e indissolúvel. O que Deus uniu o homem não separe! Amor pela terra natal é assim: por mais que a gente ande, conheça o mundo e outras culturas, nossas origens nunca saem de dentro de nós. Quando a saudade bate e dói, eu beijo os versos que escrevi para ela chorando.

Para mim, terra natal é sol, fonte de vida. Cada passada por suas ruas, esquinas, praças e bares, um caminho aberto, uma nova conquista. Tenho razão de sentir saudade dos caminhares quando a tarde cai e a luz da lua. Quem inventou a distância nunca sofreu a dor de uma saudade. Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem, como dizia Clarice Lispector.

Metade de mim agora é assim: de um lado a poesia, o verbo, a saudade. Do outro, Afogados pendurada na parede, como retrato drumoniano, de velhas saudades, de beijos de mil fragrâncias. Saudade a gente tem é dos pedaços de nós que ficam pelo caminho. Sinto saudades de coisas que tive e de outras que não tive, mas quis muito ter. Sinto saudades de coisas que nem sei se existiram e que parecem imaginárias, porque são marcas de um passado dourado.

Quando vejo retratos dos meus anos de menino feliz em Afogados da Ingazeira, como a praça e o coreto de tantas retretas, sinto cheiros de jabuticaba, de tanajura assada que a gente catava pelas ruas desertas. Quando escuto uma voz, quando me pego pensando no passado, sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei. Sinto saudade dos que se foram e de quem não me despedi direito, daqueles que não tiveram como eu dizer adeus.

Sinto saudade das coisas que vivi e das quais deixei passar. Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que, não sei onde, para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi na infância no meu torrão. Minha terra é como um colírio para os meus olhos, sempre pronto alimentar a minha alma. Tenho orgulho do seu povo humilde e sempre bem disposto, que no fim da tarde se senta nas esplanadas dos bares para beber e rir das suas vidas tão sofridas.

Já disse Rubem Alves que a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar. Sentimentalmente, não me sinto separado da minha Afogados da Ingazeira, mas a separação forçada e cruel da realidade do dia a dia me faz admitir, porque toda separação é triste. Triste porque guarda memória de tempos felizes, ou de tempos que poderiam ter sido felizes. E na separação mora a saudade.

Um beijo para minha amada!

(*) Por Magno Martins

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