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sábado, 4 de junho de 2016

Em São José do Egito, o bar Elite era palco de grandes cantorias

Para quem não sabe o Bar Elite foi sinônimo de ponto de apoio aos grandes cantadores dos anos 70 até metade dos anos 80. Foi palco das grandes cantorias e conhecido por ser endereço e ponto de encontro dos grandes mestres do improviso. Por ali passaram os maiores repentistas daquela época.

Zé do Elite

Por coincidência, o proprietário deste estabelecimento era o meu Pai, mais conhecido por “Zé do Elite”. Naquele tempo era tradição as cantorias acontecerem durante o dia. O público tinha uma sensibilidade maior e isso os diferenciava do publico das cantorias dos dias de hoje. Também vale frisar que a cantoria não tinha data certa e nem hora para começar, tudo era simples, os cantadores que vinham de outros lugares e passando por esse palco pediam um espaço e sempre eram atendido com o maior prazer por seu proprietário.

Posso afirmar que sou um privilegiado por ter vivenciado todos aqueles momentos marcantes da época, possivelmente lembro quando pequeno observava Zé Catota que para muitos já era conhecido como a metralhadora do repente; também o genial Zezé Lulu da Serrinha, Diniz Vitorino, Dimas Batista, Otacílio Batista que sempre recitava sua obra imortal; a poesia de Mulher Nova…, Pinto do Monteiro “O cascavel do repente”, Lourival Batista “O Rei dos trocadilhos” com a sua inseparável bengala e seus livros prediletos que eram objetos maiores de seus desejos.

A presença e a figura do genial Cancão, que sempre ficava na primeira cadeira ouvindo e admirando os vates que ali faziam seus versos de improvisos, e que, de vez enquanto tomava um bicada de cana e nas muitas vezes vi seus olhos encher-se de lágrimas com a grandeza do verso. Cancão era uma pessoa muito sensível.

Vi um Manoel Xudú, poeta lírico e, que mesmo tendo seus momentos de embriaguez, mas quando sóbrio se emparelhava a Job Patriota e provavam a todos o porque deles serem os verdadeiros autênticos “Reis do Lirismo”.

O mestre maior das mentiras, João Furiba, fazia seus versos com uma simplicidade sem igual, até fazer os ouvintes aplaudirem e ao mesmo tempo soltarem gargalhadas; além do grande poeta Louro Branco, que também era conhecido pelos seus versos engraçados.

Cito aqui alguns cantadores que mais frequentaram o Bar Elite, são eles: Sebastião Dias, João Paraibano, Daudeth Bandeira, Raimundo Borjes, Sebastião da Silva, Moacir Laurentino, Severino Feitosa, Severino Ferreira, Ismael Pereira, quase todos estes em início de carreira.

Recordo-me bem do ano de 1976, quando a dupla Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio lançaram o seu primeiro álbum “Violas de ouro”, uma joia rara que até hoje não conheci outro igual , um trabalho inovador com gêneros diferentes, assim como: a sextilha, o martelo, o mote, o quadrão, o beira-mar, o mourão, o gabinete e por último o pai Tomaz, e que, se não me engano, foi uma criaçãoda dupla. Ao chegarem ao Bar Elite para divulgação do seu primeiro trabalho fonográfico e sendo que , naquela ocasião, os dois poetas sugeriram à alguém arrumar emprestado uma radiola para tocar o seu primeiro trabalho, e em pouco tempo esse pedido foi atendido (não me lembro por quem, só me lembro que era uma pequena radiola que tinha duas caixinhas acopladas). Esse disco foi um sucesso total, e em pouco tempo o Bar Elite estava lotado de ouvintes chegando a represar até a calçada. Na verdade e na minha opinião foi um dos melhores discos de cantorias já lançados, que tinha como a principal faixa: “O Sertão em carne e alma”, que até os dias de hoje é considerado uma obra prima destes dois Gigantes da Cantoria.

Também não poderia deixar de citar o mestre Manoel Filó, que quando chegava na cantoria era motivo de imensa alegria para os cantadores que ali se encontravam, já que naquele tempo não existia o ingresso, mas sim, uma simples bandeja ou um prato de alumínio que era colocada em cima de um pequeno tamborete para arrecadação do cachê dos poetas. E Filó, como era conhecido por sua generosidade, nas muitas vezes colocava uma alta quantia em dinheiro, que daria para pagar a cantoria toda e além do mais fazia os melhores motes da cantoria.

Ainda guardo uma vaga lembrança da distinta plateia composta por nobres pesquisadores e admiradores da arte poética, tais como: Walfredo Siqueira, João Pedro de Brejinho, Dr. José Rabelo, Dr. José Silva, Dr. Gilvaney, Antônio de Catarina, Sebastião Siqueira “Beijo”, Zé Marcolino, Antônio Catita, Zé Rocha, Vandelson Barbosa, Pedro Salviano – Zé Dom Dom, Joventino Leite, Luiz Leite, Galego Cazuza, Nezinho Cazuza, Luiz Quinca, Manoel Mansinho, Cícero Formosino, Tibôa, Torrinho, Cabrinha, Teófanis Leandro, Bina Carcereiro, Olavo Valadares, Edivaldo da Bodega, Cleonice, Jacinto Januário “Pai de Gonzaga”, Elpídio “Pai de Totó, Joquinha do Bazar Campinense, Zezé Siqueira, Chico Fote, Zé de Finado, Chiaba, Biu Sanharó, Gonga, João Guará e tantos outros.

Neste espaço aconteceram muitas histórias, tanto da cultura, quanto da vida pública da cidade, pois, quase tudo era discutido no Bar Elite. Claro também não poderia deixar de falar do seu cafezinho que era a sua maior marca registrada. Localizava-se na famosa Rua da Baixa, onde hoje funciona a Ótica Santa Luzia.

Fica aqui um pouco o registro de um tempo muito especial da história da capital da Poesia, que para muitos é desconhecido e confesso que para mim foi muito emocionante e gratificante falar um pouco deste Templo da Cantoria. (Texto de Gilberto Lopes)

Um comentário:

  1. Excelente texto. Apesar de ser criança na época, ainda conheci algumas pessoas citadas no texto. Senti saudades da época.

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