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sábado, 9 de abril de 2016

Jornal do Commercio: Sertão do Pajeú mostra nova geração literária e musical

A poesia do Sertão do Pajeú de Pernambuco não se foi com os trocadilhos de Lourival Batista, ou com o lirismo de Rogaciano Leite. Pelo contrário, seus versos, junto com os de tantos outros poetas sertanejos, germinaram uma nova geração de artistas pajeusenses, que estão conseguindo realizar suas obras artísticas e distribuí-las sem depender de grandes apoios financeiros, contando apenas com o companheirismo dos demais artistas.

Ayrton Queiroz, Thyelle Dias e Vinícius Gregório
Foto: Rayane Brito/ Divulgação

Hoje, às 19h, Itapetim promove a 12ª edição do Itapetim DiVerso, no Mercado Público do município. O evento, realizado pela Assoc’Arti com o apoio da prefeitura, homenageia o músico Romário Ferreira e traz, além do homenageado, apresentações musicais e declamações de poetas da região, entre eles, o grupo Baião Nós Três.

Foto de Bernardo Ferreira/Divulgação (Da esquerda para a direita, em pé, Gislândio Araújo, Alexandre Moraes, Ayrton Queiroz, Dudu Morais, Lucas Rafael, Genildo Santana, Lenelson Piancó, Dayane Rocha, Henrique Brandão, Lima Júnior, Marcos Freitas, Zé Adalberto e Jorinha Ferreira; Sentados, da esquerda para a direita, Vitória Fernarndes Izabela Ferreira, Dayane Lopes, Thyelle Dias, Neci de Arnaldo, Kamila Leite e Lucivânia Bernardo).

A militância de artistas como esses está presente, acima de tudo, no ato de permanência produtiva cultural. São diversos eventos mensais e anuais que acontecem por meio de colaborações artísticas e pequenos incentivos privados – geralmente do comércio local –, fazendo com que a cena continue caminhando. A dinâmica segue da seguinte maneira: quando o evento acontece na cidade “x” os poetas e músicos dos municípios vizinhos vão participar sem cobrar nada além de uma ajuda de custo. Assim, é como se existisse um rodízio de eventos democráticos e sem fins lucrativos em prol do público e dos próprios poetas que defendem a cultura sertaneja. Artistas de cachês mais altos, como Flávio Leandro e Irah Caldeira, também costumam participar de alguns desses eventos, requisitando unicamente transporte e hospedagem – Irah, por exemplo, já se apresentou por nove anos consecutivos na Missa do Poeta, em Tabira, sem pedir remuneração.

“A cada edição esses eventos vêm se firmando como alternativa ao isolamento cultural da região. Aos poucos, através dessas verdadeiras confraternizações acessíveis a todos e sem finalidade de lucro, está se consolidando uma pequena revolução. Quebram-se as muitas barreiras existentes entre os próprios artistas da região e até mesmo nas cidades onde vivem”, explica o poeta e produtor Fernando Marques.

Segundo o professor, produtor e poeta Genildo Santana, de Tabira, membro da Associação dos poetas e prosadores de Tabira (APPTA), uma mesa de glosas de qualidade pode ser custeada com cerca de R$ 1,5 mil. No entanto, com exceção de alguns municípios, nem a metade desse valor chega às mãos dos produtores – isso quando chega. “Já são 25 anos da Missa do Poeta aqui em Tabira e no máximo duas vezes o projeto passou para ter apoio do governo. A gente sempre se candidata a editais, mas dificilmente eles são aprovados. Chega a ser humilhante quando nós organizadores vamos atrás do apoio das secretarias municipais: eles sempre dizem que não têm dinheiro para esses ‘eventos culturais’, mas gastam números altíssimos com artistas de fora”, relata. 

Genildo, no entanto, elogia alguns órgãos. “O Sesc de Triunfo tem sido maravilhoso para a gente, eles investem na literatura, então nós sempre estamos por lá, dando palestras, oficinas, mesas de glosas, declamações. Existe também a Jornada Literária do Araripe, feita pelo Sesc do Recife, que também é um forte aliado para nossa cultura”, ressalta.

Cadeia produtiva motiva a fé

Nesse cenário independente, a produção e a distribuição dos livros são feitas pelos próprios poetas, e o serviço de impressão acontece, na grande maioria das vezes, através de gráficas particulares situadas na região, tudo custeado pelo autor, sem editoras. Os músicos gravam, mixam e masterizam suas próprias músicas. Os artistas usam as redes sociais na hora de difundir e até mesmo vender seus produtos, sejam CDs, livros, cordéis, ou qualquer outro material.

Zé Adalberto, poeta, produtor e escritor independente de Itapetim, é autor dos livros Cenário de Roedeira e No Caroço do Juá, além de vários cordéis e um CD de declamações que fez junto com os poetas Alexandre Morais e Genildo Santana intitulado de Retrato Três por Três. Recentemente, Zé Adalberto fechou contrato com a Design Editora e Gráfica para produzir o seu novo livro, Real ou Imaginário: Circo é Diversão. “O que dificulta muito é que não podemos vender os livros para o governo já que essas obras são quase sempre sem registro, sem falar que a tiragem é bem curta. O CD com Alexandre e Genildo foi feito para pagar os custos da viagem do divulgação de um dos meus livros. O lado bom de se estar com uma editora é que o seu poder de alcance cresce: o meu novo livro, por exemplo, irá para alunos filhos de brasileiros no Canadá”, diz o poeta.

Vinícius Gregório, de São José do Egito, membro do grupo Baião de Nós Três, disponibilizou para download gratuito o seu CD de declamações. Além da obra, o poeta já publicou um livro e está com o segundo pronto para impressão, tudo de forma independente. “Graças a Deus tenho condições de bancar meus próprios trabalhos e essa é a vantagem de publicar independente: não ter que esperar a boa vontade de patrocinadores ou do poder público. Mas lamento muito não existir uma política de incentivo a publicações de materiais dos nossos poetas, pois conheço inúmeros, de muita qualidade, que não conseguem publicar por não terem dinheiro. Quanto a nossa cultura não está perdendo? Eu não tenho conhecimento de outro lugar que tenha mais livros de poesia publicados do que no Pajeú. Só na minha estante eu tenho mais de 100 livros de poetas daqui, e olha que ainda existem muitos que não consegui acesso. Então eu imagino que se existisse um incentivo governamental, esse número triplicaria facilmente. Material nós temos, o que falta é incentivo para publicá-los”, completa Vinícius.

Antônio Marinho, de São José do Egito, integrante do Em Canto e Poesia e produtor da Festa de Louro, comenta: “O artista tem que fazer o que é verdade para ele. Quando você faz de verdade, você termina se juntando a outras pessoas, a outras artes, e fazendo parte de uma natural coletividade. Eu acho que não é pensar num produto de venda, mas pensar realmente em como que você deseja fazer enquanto artista. Acho que isso já é militar o bastante, fazer a verdade e deixar que a arte se sobressaia antes de tudo.”

Rima sem distinção de gênero

No início de março, ocorreu a primeira edição da Mesa de Glosas para a Mulher. O evento em homenagem ao Dia Internacional da Mulher levou para Itapetim uma festa de poesia e representatividade feminina. Nos intervalos de cada rodada da mesa de glosas, poetisas declamavam versos seus ou de outras mulheres.

Este crescimento do espaço feminino numa arte de uma região tradicionalmente machista não é à toa: a qualidade poética dos versos das poetas traz consigo uma singularidade narrativa que não se costumava ver há muito tempo por lá.

“A poesia, por muito tempo, esteve quase que integralmente nas mãos e vozes masculinas. Contudo, a mulher tem galgado seu espaço não só no meio social e profissional porque, de forma muito astuta, vem sendo também protagonista do mundo poético. Não que homens e mulheres sejam times adversários nesse meio, pelo contrário, nós nos unimos para espalhar a poesia e, com ela, a sua pureza”, diz Izabela Ferreira, de Itapetim.

“Ser filha do Pajeú é dádiva, porque nesse lugar a poesia é presente em cada detalhe do nosso cotidiano. Talvez por isso as pessoas daqui tenham tanta doçura na forma de ser e agir. Aqui o homem declama, glosa, escreve, e a mulher também. Por isso se torna cada vez mais comum a presença feminina em mesas de glosas, rodas de declamação e saraus. A poesia, por si, não permite que exista distinção entre criança, jovem, idoso, homem ou mulher. O Pajeú, num só time, levanta uma só bandeira: a da Poesia”, completa ela. Além de Izabela, outras poetisas da região são: Dayane Rocha, Dayane Lopes, Dekiane Ribeiro, Elenilda Amaral,Thyelle Dias, Isabelly Moreira, Mariana Teles e Mariana Veraz.

CONHEÇA

Músicos:

Alguns dos tantos artistas musicais são: As Severinas, trio de poetisas que misturam forro pé de serra com poesia; Em Canto e Poesia, trio de músicos e poetas interpretando e produzindo versos e cantigas; Baião Nós Três, com pouco tempo de estrada mas muito de poesia; Vozes e Versos, banda mais regional, com forró pé de serra e poesia; Mambembes, que mistura alguns estilos com a vertente regional; Xote do Bem, banda de forró que interpreta versos de poetas regionais; Henrique Brandão, Poeta e cantor, que recentemente lançou seu primeiro vídeo clipe da música Réu Confesso.

Escritores:

Abrão Filho, de Brejinho-PE; Alexandre Morais, de Afogados da Ingazeira-PE; Arlindo Lopes, de São José do Egito-PE; Dedé Monteiro, de Tabira-PE; Dudu Morais, de Tabira-PE;Egito Siqueira, de São José do Egito-PE; Genildo Santana, de Tabira-PE; Geni de Fonte, de Itapetim-PE; Gonga Monteiro, de Tabira-PE; Lenelson Piancó, de Itapetim-PE; Lima Júnior, de Tuparetama-PE; Nenem Patriota, de São José do Egito-PE; Paulo Monteiro, de Tabira-PE; Vinícius Gregório, de São José do Egito; Zé Adalberto, de Itapetim-PE.

EVENTOS POPULARES

Caçuá da Cultura, produzido pelo poeta Fernando Marques, em São José do Egito; Balaio Cultural, também produzido por Fernando Marques, em Tuparetama; Cestão da Cultura, organizado pelos poetas Gislândio Araújo e Ayrton Queiroz, com contribuição da Secretaria de Educação de Brejinho; Cantilena, organizada pelo poeta Luizinho, em Ingazeira; Festa de Louro (anual, nos dias 4, 5 e 6 de janeiro), organizado pela família Marinho, com apoio de órgãos público e privado; Itapetim DiVerso, organizado pelos poetas e escritores Zé Adalberto e Lenelson Piancó e com o apoio da prefeitura, em Itapetim; Mesa de Glosas para a Mulher, produzida também pelo poeta Zé Adalberto e com o apoio da prefeitura local, em Itapetim; Missa do Poeta (anual), em Tabira, organizada pela Associação de Poetas e Prozadores de Tabira; Serra Cultural, produzida pelo poeta e músico Henrique Brandão, em Serra Talhada; O Pajeú em Poesia (25/12 – anual), organizada pelo poeta e escritor Alexandre Morais, em Afogados da Ingazeira.

(*) Fonte: Jornal do Commercio

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